Obra e fé

    O tema que trata das obras e da fé como justificativas para a salvação, não raramente é tratado em diversas igrejas de uma maneira um tanto quanto confusa. Em parte alguns líderes não adentram ao cerne da questão por que eles próprios não galgaram ao nível de excelência que esta questão exige, e assim, não podem ensinar aquilo que não praticam, de modo que tratam este assunto tão relevante para os cristãos de uma forma distorcida; também em parte, este assunto parece ser evitado em algumas igrejas, muitas delas prósperas, porque simplesmente estas não possuem qualquer tipo de obras destinadas ao apoio de pessoas mais carentes socialmente e principalmente nestas, às pessoas ricas ou que ocupem cargos importantes na sociedade são dado lugares de destaque na casa de Deus, em completo desalinho ao que é instruído na epístola de Paulo a Tiago, capítulo 2.

   Na verdade, diariamente somos postos diante de situações pequenas em que nossas obras e nossa fé são testadas, e é bom que saibamos que todas nossas atitudes estão sendo “gravadas” pela onisciência existente no Reino Celestial, portanto, quando praticamos boas ou más obras junto a pessoas desconhecidas ou que não façam parte do nosso círculo de amizade ou familiar, estas obras são colhidas e pesadas em momento oportuno, assim, é um ledo engano imaginar que apenas fazendo boas obras junto à pessoas próximas estaremos sendo justificados, pois se assim fosse, estaríamos reduzindo a amplitude da ação soberana e onisciente de Deus.

       Talvez seria o caso de imaginar que nossas boas ou más ações realizadas junto a pessoas que não possuam qualquer influência em nossa vida tenham um peso maior, pois dentro de um grupo familiar, religioso, comunitário ou de trabalho, somos pautados por regras e hierarquias que moldam boa parte de nossas atitudes, além do que nestes grupos existem interdependências que igualmente nos forçam, sempre que possível, no sentido da construção de um convívio amistoso e harmônico e quando estamos distantes destes grupos, muitas vezes nos sentimos “livres” destas obrigações e é exatamente aí que nossas intenções e caráter são medidos duplamente, por imaginarmos que não estamos sendo “vigiados” por algum conhecido, mas não é o que ocorre, existe no mundo espiritual, alguém tomando nota destas atitudes.

                                              

       Neste ponto é que emergem as perguntas cruciais desta questão: as obras dão testemunho da minha fé ou pela fé estou predisposto a realizar boas obras? A fé é oriunda da percepção da existência de uma força criadora e mantenedora de toda existência, onde se inclui o homem, a quem busca regenerar. A fé é a força que dá início a uma realização: Abraão teve contato com a força criadora e mantenedora de Deus e, pela fé peregrinou várias décadas até concluir a realização daquilo que lhe tinha sido proposto por Deus. Abraão é considerado o Pai da Fé, mas nem por isso praticou apenas boas obras, uma má obra que praticou há cerca de 3.800 anos tem grandes repercussões até a data de hoje, ao coabitar com a serva Agar, que concebeu a Ismael, que deu origem aos povos sarracenos (Sara sine ou “sem Sara”), dos quais surgiram os muçulmanos, porém Deus, em misericórdia e para cumprir a aliança que tinha feito à Abraão, prometeu que de Ismael nasceria uma grande nação, que se cumpriu no islã. ( ver nossa série Cristianismo e Islamismo – perspectivas imediatas).

                                               

     A fé é o resultado da relação vertical Deus-homem, e ela não é algo inerente ao ser humano, mas um dom dado por Deus (Efésios 2:8) e as obras são praticadas numa relação horizontal homem-homem. Poderá o homem praticar uma boa obra junto à Deus, a quem não vê? A resposta é sim, praticando boas obras junto aos homens, que Ele criou. A grande obra de Abraão, que teve início na fé, foi dar início a muitas nações que adorariam ao Único Deus. Mas teria a fé uma importância superior às obras? A resposta é não, Satanás conheceu a Deus e portanto tem fé absoluta na Sua santidade e poder, mas contraria o Seu projeto e propósito para com os homens.

                                             

      A fé, portanto não é a garantia da realização de boas obras, mas as boas obras dão fiel testemunho da fé, que dada por Deus, é posta em ação, gerando as boas ações. A fé sem obras é portanto inócua (Tiago 2:14). Temos de ter a sabedoria necessária para saber viver o breve tempo que temos e conquistar patamares espirituais dignos de honra, para que nossas ações sejam aprovadas sobretudo por Deus, pois entre os homens raramente se achará alguém que te julgue com a mesma profundidade que Ele, pois as relações sociais humanas são pautadas por diferentes formas de interesses, que desvirtuam os valores fundamentais das boas obras, portanto quando se fizer boas obras, não as faça para obter louvores terrenos, mas celestiais.

                                                


        Mas seria possível desvincular fé de boas obras? Vamos imaginar que um jovem que completou dezoito anos e está iniciando sua vida profissional. Como cristão ele se qualificará e dará o melhor de si para obter êxito neste propósito, seja para trabalhar na iniciativa privada, no setor público ou gerindo seu próprio negócio, mas em todas as opções certamente participará de um meio social, onde tratará com pessoas de diferentes índoles, caráter, cultura, classe social e educação e em sua incipiente experiência de vida, certamente se deparará com situações inusitadas, onde deve buscar sabedoria e inspiração superiores, para que estas tenham um bom deslinde. Pela fé este jovem deu início ao seu projeto profissional, ao se deparar com um meio social heterogêneo, tendo o foco em sua meta, se obrigou a uma conduta social amistosa, sempre que possível, ou seja, se viu diante da prática de boas ou más obras, e como ocorre com todos os humanos, recorreu em situações difíceis, à busca de auxílio superior divino, pois nem sempre estaremos cercados de pessoas sábias a nos aconselhar, ou seja, a fé esteve presente no início e no fim desta jornada, durante a qual suas obras foram testadas; portanto é impossível dissociar obra e fé.

                                             


    A fé é a força extra que nos leva a atingir nossos objetivos, ela nos proporciona sabedoria, domínio próprio, sensatez, paciência e esperança e a percepção de que este objetivo se aproxima a cada dia e as boas obras nos qualificam para galgarmos níveis superiores nas relações humanas, com as quais, a cada novo amanhecer, devemos dar nossa parcela de contribuição, levando entusiasmo ao desanimado, alegria ao triste, fé ao descrente e amparo ao necessitado, sem destes esperar retribuição, mas fazendo isso, inevitavelmente agradará a Deus e terá a confiança de muitas pessoas. 


       Por Nelsomar Correa, em 07 de fevereiro de 2016. 

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